Estudos Biblicos

A importância e necessidade da interpretação bíblica – II

Conheçamos resumidamente cada uma destas cinco partes da Teologia. É importante que você as assimile. A Teologia Exegética se ocupa dos métodos hermenêuticos a fim de poder descobrir o sentido real do texto bíblico. Em outras palavras, ela usa os recursos fornecidos pela própria hermenêutica para fazer esta descoberta. A Teologia Exegética utilizará para isto a filologia sacra, i.e., o estudo das línguas originais em que a Bíblia foi escrita: o Hebraico, o Aramaico e o Grego. Considera também a matéria chamada de Introdução Bíblica que fornece os primeiros conhecimentos sobre a Bíblia, preparando assim o estudante para iniciar no estudo teológico. Justamente por isso, esta matéria, Introdução Bíblica, que faz parte da Teologia Exegética, tem sido chamada de Isagoge Bíblica, pois o termo Isagoge vem do grego e significa justamente “conduzir para dentro”, “introduzir”, “introdução”.

 

A Teologia Histórica irá lançar mão dos posicionamentos históricos teológicos, como o próprio nome da disciplina sugere – Histórica. Este lançar mão dos posicionamentos históricos teológicos inclui uma abordagem sobre os afastamentos doutrinários promovidos por movimentos sectários, como o arianismo, o ebionismo, o eutiquianismo, etc. A Teologia Histórica lança mão da História da Igreja, História das Missões, História das Doutrinas, dos Credos e das Confissões.

 

A Teologia Bíblica por sua vez, como o próprio nome sugere, irá analisar a Bíblia em si mesma, i.e., considera a teologia exposta e desenvolvida nos livros bíblicos, desde o Gênesis até o Apocalipse. Desse modo, estuda-se a Teologia do Antigo Testamento e a Teologia do Novo Testamento.

A Teologia Sistemática por sua vez consiste num conjunto de matérias ou disciplinas teológicas, que seguem um esquema sequencial, lógico, ordenado, “sistemático”. Uma matéria complementa a outra num ciclo teológico de doutrinas bíblicas. Ela compreende o estudo da Pessoa do Pai (teontologia, teologia ou teologia própria), do Filho (cristologia), do Espírito Santo (pneumagiologia, paracletologia ou pneumatologia), a doutrina da salvação (soteriologia), a doutrina do homem (antropologia), a doutrina do pecado (hamartiologia), a doutrina das coisas futuras (escatologia) e assim por diante. É fundamental conhecer a Teologia Sistemática, pois ela ordena o conjunto de verdades teológicas reveladas na Palavra de Deus.

 

Por fim, temos a Teologia Prática que procura trazer para a realidade vivencial aquilo que se obteve como resultado da análise e investigação teológica. É a teologia posta em prática. A teologia prática inclui disciplinas como homilética, que trata da preparação e exposição de sermões, organização e liderança, administração eclesiástica, liturgia dos cultos, a pedagogia cristã e etc.

Para concluir, a hermenêutica está no campo da teologia exegética, que trata da compreensão das Sagradas Escrituras. É importante que você fixe isso em sua memória.

 

III. A NECESSIDADE DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Passamos a apresentar algumas premissas que justificam a hermenêutica como uma necessidade para se compreender adequadamente a Palavra de Deus. Uma premissa é um “fato ou princípio que serve de base à conclusão de um raciocínio” (Aurélio). Tal definição provoca-nos uma inquietação: Nossas conclusões ante a Bíblia Sagrada suportam uma análise hermenêutica?

 

Primeira Premissa: Deus se Revelou!

A primeira premissa básica que apresento aqui como necessidade para a interpretação bíblica é que Deus se revelou à humanidade e essa revelação, consequentemente, precisa ser compreendida, precisa ser interpretada. Deus se revela aos homens através das Sagradas Escrituras e Ele também se revelou em Cristo, “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3 – ARC). Cristo é a revelação máxima de Deus aos homens – Cristo é o ápice da revelação divina. Mas Cristo também está descrito nas Escrituras e por elas nos é comunicado; sendo assim, é necessário compreender as Escrituras para compreender Cristo, uma vez que Cristo e as Escrituras estão intimamente relacionados. É o que Ele mesmo afirma e o evangelista João corrobora (cf. nessa ordem: Jo 5.39 e Jo 1.1,14). Sem a compreensão correta das verdades bíblicas jamais poderemos nos manter como Igreja de Cristo, pura, santa e aguardando o retorno do Noivo. Somente em Cristo é que podemos então compreender corretamente aquilo que Deus mostra-nos em Sua Palavra. Cristo é a chave principal da hermenêutica bíblica, pois a Bíblia toda se cumpre em Cristo. Ele mesmo declara isto: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Quando dizemos que Deus se revelou estamos inevitavelmente afirmando que Deus deseja ser conhecido pelo homem, compreendido pelo homem, “interpretado” pelo homem! A própria revelação de Deus por si só subentende isso. Mas isso, é claro, dentro do que DEle podemos conhecer, daquilo que a nós Ele comunicou sobre Si mesmo, afinal de contas, sabemos que o finito não pode conhecer o Infinito e que o limitado não pode compreender plenamente (plenamente) o Ilimitado e o mortal sondar “aquele que tem, ele só, a imortalidade e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver; ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém!” (1 Tm 6.16). Estou convencido de que em grande parte, a pregação dita evangélica não conduz às pessoas à Cristo, a conhecê-lo de fato. Nesse momento, a hermenêutica presta relevante serviço quando nos permite conhecer melhor as Escrituras. É mesmo uma pena que tantos ignorem o estudo sério, dedicado, “hermenêutico” das Sagradas Escrituras…

 

Segunda Premissa: O Pecado

O pecado afetou a humanidade em todos os sentidos. Até a própria natureza sofre por causa do pecado: “Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22). A própria criação aguarda a libertação do pecado, que só será realizada pelo Criador, o Senhor, na consumação de todas as coisas. O pecado, portanto, tem um efeito destrutivo sobre toda a criação. A humanidade é descrita algumas vezes nas escrituras como estando cega para entender a comunicação de Deus à ela. Expressões como “tempos da ignorância”, “trevas”, “obscurecidos de entendimento”, “coração insensato” e assim por diante (cf. At 17.30; Rm 1.21; Ef 4.18) evidenciam a dificuldade dos homens em compreender a revelação de Deus por causa da presença do pecado, embora isso não os torne isentos de responsabilidade diante de Deus! (leia Romanos 1). É aqui que passamos a considerar a importância vital do Espírito Santo no trabalho de fazer hermenêutica bíblica. Uma vez que acabamos de entender que o pecado nos obscurece o entendimento das Sagradas Escrituras, o Espírito Santo no entanto, age como O Iluminador das Sagradas Escrituras para nós, abrindo-nos caminho na revelação divina contida na Bíblia. Isso é depreendido das palavras de Jesus em João 14.17: “o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (ARC). Neste texto, como vemos, o Espírito Santo é chamado de Espírito da Verdade, isto por causa da sua ação no sentido de promover a verdade de Deus entre os homens, torná-la conhecida aos homens. Também lemos no versículo oito do mesmo capítulo: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. Este convencimento só pode vir mediante a compreensão da revelação de Deus aos homens. Desse modo, o hermeneuta deve sempre depender do Espírito Santo para compreender corretamente a Bíblia. É Ele que nos guia nesta jornada do conhecimento das verdades divinas, abrindo nosso entendimento para recebê-las. Desse modo, o hermeneuta deve ser também humilde e sincero e ter o coração aberto para compreender a Bíblia.

 

Terceira Premissa: As Dificuldades Próprias da Bíblia

Deve o estudante da Bíblia levar em consideração que a Bíblia foi escrita num tempo muito distante do nosso, por pessoas que viviam numa cultura e contextos muito diferentes dos nossos e em línguas também distintas da nossa. Estes fatores por si só constituem-se em grandes dificuldades para a compreensão correta da Bíblia. Elementos culturais que são encontrados em abundância no texto bíblico são para nós muitas vezes estranhos e se não os conhecermos adequadamente acabamos ficando impedidos de entender qual o real sentido de determinada passagem bíblica em que esses elementos culturais aparecem. Um exemplo disto temos em Mateus 18.23-35 na parábola contada por Jesus sobre o credor incompassivo. Quando descobrimos que dez mil talentos correspondem a uma soma de dinheiro incrivelmente superior à cem denários, entendemos que o que Jesus está ensinando na verdade é que Deus nos perdoou de maneira muito maior do que imaginamos e mesmo assim, muitas vezes, não perdoamos ao nosso irmão, numa falha incomparavelmente menor! Na Bíblia encontramos referências a hábitos, lugares, ritos religiosos, partidos religiosos, moedas da época (ou porque não dizer “o dinheiro da época?”) e assim por diante. Encontramos na Bíblia uma estrutura literária também diferente da nossa e que precisa ser compreendida. A Bíblia é singular neste sentido. O que é uma metáfora? Um tipo? Uma parábola? Um hebraísmo? Enfim, são recursos próprios da literatura bíblica que precisam ser conhecidos pelo estudante da Bíblia. Aí está o papel da hermenêutica: fornecer os elementos necessários para a assimilação destes recursos literários.

 

Quarta Premissa: O Escritor e o Leitor no Contexto Bíblico

Nesta quarta e última premissa básica que apresentamos como justificativa para a necessidade da hermenêutica consideraremos o escritor bíblico e o leitor de seu tempo, isto é, o destinatário para quem os escritores bíblicos estavam direcionando seus textos. Este é um fator importantíssimo para se compreender corretamente os textos sagrados. Embora saibamos que a Bíblia se aplica a qualquer povo e em qualquer época (ela é supracultural), quando entendemos o porquê de determinado escritor bíblico ter escrito o que escreveu e para quem está escrevendo e em que circunstâncias, passamos a compreender mais profundamente a mensagem daquele texto. Tome como exemplo os capítulos dois e três de Apocalipse, que contém as sete cartas do Senhor Jesus endereçadas às sete igrejas da Ásia. Cada carta, cada igreja e cada anjo de cada uma das sete igrejas estão enfrentando suas próprias dificuldades, seus dilemas, suas deficiências e eles tem também suas qualidades positivas e méritos e cada igreja está inserida em um contexto cultural e social específico. Tudo isso no tempo de João, o apóstolo. Ao conhecer estes elementos, o leitor da Bíblia passa a compreender porque João está dizendo o que está dizendo. A partir daí, ele logo perceberá o quanto o texto bíblico simplesmente faz todo o sentido de ser como é, de estar escrito como está!

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