Estudos BiblicosFamília em Deus

Família e Pós-modernidade

Pós-modernidade, Hiper Modernidade, Modernidade Líquida, entre outros, são os títulos dados pelos especialistas da sociologia e de outros ramos do saber humano ao tempo em que vivemos. A despeito de qual dessas nomenclaturas possamos escolher, ou qual delas venha ser mais usada e explorada pelos pesquisadores do assunto, uma coisa é certa: vivemos num tempo de profundas mudanças e instabilidades. Não sou sociólogo, filósofo e nem antropólogo, mas me atrevendo a refletir sobre nosso tempo, gostaria de nomeá-lo com uma expressão bíblica já bem conhecida de todos nós: “Tempos Terríveis!”. O sociólogo polonês Zigmund Bauman utiliza em sua obra a figura da liquefação, da liquidez, para descrever nosso tempo. Para Bauman, nada é sólido, antes, tudo é líquido, isto é, tudo se desfaz, se desmancha, nada é duradouro, seguro, firme. Sem dúvida alguma, uma percepção genial e verdadeira do sociólogo Bauman. Nietszche, filósofo alemão do século 19, que escreveu sobre a “morte de Deus”, é considerado por estudiosos como o filósofo que descreve antecipadamente todo o século 20. Porém, em pleno século 21, reconhecemos que Nietsche tinha, de certa forma, alguma razão em sua descrição, pois parte dela continua valendo para o nosso século. A despeito do “boom religioso” que presenciamos atualmente no Brasil e no mundo todo, o homem vem se apegando aos elementos dessa era pós-moderna e “matando Deus”, por assim dizer. Que pese o fato de que o ateísmo – a negação consciente de Deus – vem crescendo no mundo todo. Diante do exposto, nos perguntamos qual o futuro da família e qual o impacto disso tudo para ela? Ou ainda (reformulando a pergunta): qual o impacto da pós-modernidade sobre a família?

 

Para respondermos a essa pergunta precisamos primeiro considerar o fato de que somos diretamente afetados em nosso cotidiano pelo pensamento pós-moderno. Nossa família é afetada assim também. Isso porque fazemos parte da sociedade, porque nós mesmos somos a sociedade. Em nossas igrejas, muitas vezes, ensinamos e fomos ensinados a não “nos misturar com o mundo”, afinal, somos “igreja de Cristo”, um povo eleito, escolhido, “chamado para fora” do mundo. Penso que trabalhamos muito mal esse conceito de separação. Creio que ele é mais bem compreendido quando o consideramos como a não adesão a práticas e à cosmovisão do mundo que se chocam frontalmente com os valores bíblico-cristãos, e não necessariamente como o abandono ou a negação de relacionamentos, de direitos e deveres sociais, da cidadania, da participação social, etc. Esquecemo-nos da oração do Mestre Amado: “Pai, não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17.15 – Almeida Corrigida e Revisada Fiel). Todavia, mesmo que façamos bem essa distinção quanto ao conceito de separação do mundo, o problema da influência da pós-modernidade persiste de certa forma, a família continua e continuará sendo atingida pelos males da pós-modernidade. E quais são esses males? A pós-modernidade é marcada por muitos fenômenos, mas por exiguidade de tempo e espaço, quero salientar aqui apenas três desses fenômenos, que sem dúvida alguma causam um impacto tremendamente negativo sobre a família. Daí a importância de identificá-los, reconhecer sua nocividade e reagir a eles com o que a Palavra de Deus nos oferece.

 

O primeiro fenômeno é o da fragilização dos relacionamentos humanos. Já não construímos ou mesmo, não conseguimos construir relacionamentos duradouros. Abrimos mão das pessoas por pouca coisa – muito facilmente. Cito mais uma vez Bauman: ele conta que alguém lhe relatou ter feito 500 “amigos” no Facebook ! Em face disto, ele comenta que aos 86 anos não havia conseguido realizar tal feito! Parece que tudo a nossa volta contribui para essa fragilização, inclusive as modernas tecnologias da comunicação (mas que comunicação estamos produzindo?). Como nunca antes o divórcio vem atingindo estatísticas astronômicas, pois afinal, o outro já não vale tanto a pena assim. Importar o outro para a agenda pessoal é realmente um grande desafio. Como bem observa o Reverendo Hernandes Dias, em uma de suas pregações, os pais hoje tentam compensar “ausência com presentes”. Estamos mais preocupados com a “pós-graduação” do que com a construção de relações profundas. Nossas salas de estar a muito deixaram de ser projetadas para que as pessoas se sentem uma em frente à outra. O resultado dessa fragilização para a família? Esfacelamento!

 

O segundo fenômeno que menciono é o que o filósofo Mário Cortella chama de miojização3 da vida!4 Tudo em nosso tempo é extremamente rápido e convenhamos: em nossa agenda apertada, isso nos atrai muito, nos parece útil, muito útil. Mas essa aceleração acaba reduzindo também a duração e qualidade de coisas importantes em nossas vidas. Oferecem-se cursos superiores em dois anos ou menos, mas isso reduz a qualidade do conhecimento adquirido. Nossas refeições tornaram-se fast food5 mas no pacote, não apenas a comida ficou mais rápida, isso também reduziu drasticamente o tempo que passamos juntos com nossos familiares nesses momentos de refeição (é claro, estou sendo muito otimista, afinal, fazer as refeições juntos também já deixou de fazer parte da nossa agenda). Tudo hoje é rápido, tudo dura pouco, inclusive nossos relacionamentos.

 

O terceiro fenômeno da pós-modernidade que menciono é o da ruptura com os marcos antigos. Um valor marcante da pós-modernidade é não ter nenhum valor a se preservar. O relativismo tem sido levado a cabo até as últimas consequências. Mas mesmo pensadores não cristãos se perguntam até onde e quando podemos levar isso avante? Considerar valores cristãos no horizonte pós-moderno tornou-se um desafio enorme, afinal, defender conceitos como virgindade até o casamento, fidelidade conjugal, amor ao próximo, entre outros, é expor-se ao ridículo (ridículo na mentalidade pós-moderna).

 

Em face disso tudo (e ainda muito mais!), o que fazer? Talvez como nunca antes, como cristão estou tendo a oportunidade de vivenciar o “sereis odiados por minha causa” e o desafio de não conformar-se com o mundo, como diz Paulo em Romanos 12.1ss. Mas, para as famílias, esse é o caminho! Fazer a vontade de Deus significa em muitos momentos, romper com padrões comportamentais estabelecidos pela sociedade pós-moderna. Como disse no início, eu chamaria nossa era de “Tempos Terríveis”, pegando emprestada a expressão do apóstolo Paulo. É claro que há coisas boas, mas o perigo jaz à porta. É o momento de fortalecer os elos familiares, fortalecer as nossas relações. É hora de aproximar-se do outro não apenas pelo som reproduzido por uma aparelho celular ou pela tela de um PC, mas face a face, o velho olho a olho, mano a mano. Penso que a resposta para os males oferecidos pela pós-modernidade está em retornarmos aos valores cristãos, resumidos na dupla ordenança: amar ao Senhor sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Já sei: na pós-modernidade isso parece até uma utopia e se você optar por essa escolha, estará, certamente sozinho, ou no máximo, entre um número minguado de pessoas, afinal, nosso tempo é o tempo do consumismo, do interesse pessoal. Essa conversa de amar o próximo e de valores já não faz muito sentido. Todavia, como bem disse Madre Teresa de Calcutá, “O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em ação, e não da necessidade de insistir com os outros para que façam qualquer coisa”. O que Bauman constata é apenas uma adaptação em termos sociológicos do que Paulo já antevira séculos antes: “nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder…” (2 Tm 3.1-5). Interessante notar que em face de toda essa descrição assustadora que Paulo faz, um tanto desoladora, Paulo diz a seu filho na fé, Timóteo: “Mas você…” Louvamos a Deus porque sempre haverá um “mas você”oferecido graciosamente por Cristo Jesus. Como disse o Pastor David Wilkerson, construa as paredes ao redor de você e da sua família.

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