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Nossa peregrinação


Constatamos, tristemente, que a Igreja vem importando o padrão do consumismo pós-moderno para sua mensagem, seu ensino, seus hinos que são cantados nos cultos e nas rádios. Como nunca antes ouvimos palavras como “sucesso”, “topo”, “você”, “vitória”, “campeão”, entre outras, sempre indicando um sucesso e êxito pessoal. As pessoas são “bombardeadas” por esse tipo de pregação (pregação!?) e criam a ilusão de que a vida cristã é uma espécie de acesso seguro ao sucesso pessoal. Convivemos assim, com uma ideia profundamente calada na mentalidade dos crentes de que viver com Cristo é antônimo de passar por dificuldades, privações, limitações, enfermidades. Mas é preciso que se reafirme que viver com Cristo, viver a vida cristã de fato, é também não ter vitória sempre! A senda com Cristo é de “necessidade e fartura”, é aprender “o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Fp 4.12).

 

Assim, na nossa peregrinação, é comum que num dia vejamos o fogo do céu consumindo o holocausto e a água ao redor do altar, mas logo depois nos encontremos debaixo de um zimbro, frustrados, fugindo, com fome e pedindo a morte. Há momentos em que Deus abre o mar e diz: “atravesse em seco”. Mas há também aqueles em que Ele é categórico: “Você não entrará na terra da promessa, apenas a verá com seus olhos”. Num dia erguemos nosso Isaque ao céu, em nossas mãos, e alegremente afirmamos: “Meu sorriso chegou”. Mas há também aquele momento em que a inconfundível voz do Eterno nos chega aos ouvidos: “Vá à terra de Moriá e lá me ofereça o seu sorriso”. Há aqueles dias em que estamos preparando uma bela túnica de várias cores para o nosso José, mas há também aqueles em que só nos resta a túnica, manchada de sangue, pois José já não está mais conosco. No caminho para o Céu, sepultamos nosso Abraão e até vemos nosso Absalão, morto, por causa da sua rebeldia. Sim, aquele Absalão que tanto amamos, a despeito de sua rebelião contumaz. Há circunstâncias em nossas vidas que não exitamos em dizer ao Mestre: “Por tua causa, vou até à morte”. Não muito tempo depois, Seu olhar, ao encontrar o meu, me faz lembrar que o neguei abertamente. A vida cristã é assim: altos e baixos, vitórias e fracassos, acertos e erros. Para o verdadeiro salvo em Cristo, o calvário continua vindo antes do Pentecostes e Ptamos, a ilha do isolamento, será o lugar da Revelação e do encontro com o Cristo glorificado. Para o servo de Deus, a toalha vem antes da capa, as escamas antes do apostolado e a espada afiada dará lugar ao “… seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras… A Jesus Nazareno” (At 2.14,22). No discipulado cristão evoluímos do “Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los?” (Lc 9.54) para o “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem” (1 Jo 2.1). Assim, a vida aos pés de Cristo caminha para a maturidade. Hoje, somos rígidos e inflexíveis com os erros alheios e assim rejeitamos o Marcos, impedindo sua companhia. Mas a vida nos ensina a viver! Tempos depois, pedimos para que o mesmo Marcos nos seja trazido – sua companhia é importante – “porque ele me é útil para o ministério” (2 Tm 4.11).

 

Essa é a realidade da vida com Deus! E é isso que precisamos deixar claro para todos aqueles que desejam viver realmente com Cristo. Sobre nós, contudo, repousa a garantia do Mestre Amado: “… E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20). Cristo nunca nos prometeu uma peregrinação isenta de aflições e angústias – aliás, Ele afirmou que teríamos aflições (Jo 16.33) – mas nos garante Sua companhia conosco, até o fim. Para aqueles que são fiéis a Cristo, diz a Escritura, “resta ainda um repouso para o povo de Deus” (Hb 4.9 – ARC).

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